Quando presenciei a renúncia de Bento XVI

Texto escrito pelo Ir. Rodrigo M. Luna, criador do Blog Católicos Tradicionais. Descreve alguns pontos de sua viajem à Roma e como foi sua reação ao presenciar a renúncia do Papa Bento XVI

Renunciade BentoXVI

Quando, para minha grande felicidade, recebi a notícia de que eu iria viajar para a Itália em fevereiro de 2013, fui consumido por uma alegria indescritível, o que não era para menos, pois iria finalmente conhecer a Cidade Eterna, a Roma dos Mártires, o Vaticano do “Magno” Bento XVI, Vigário de Cristo, Sucessor de São Pedro, Rocha Firme da defesa da Fé e da Sagrada Tradição da Igreja.

Debaixo de um intenso frio na capital italiana, conheci pela primeira vez, e espero com a graça de Deus “conhecer” mais outras vezes, o Vaticano, o centro da fé – se assim posso chamar – dos católicos de todo o mundo. Antes de entrar na Basílica de São Pedro, no primeiro dia, uma sexta-feira, dia 08 de fevereiro, apreciei aquela belíssima basílica por algum tempo, ao passo que vinha em minha mente quantas imagens já havia visto em filmes, fotos e pela internet deste lugar que talvez seja o mais famoso do mundo. Não me contive com pensamentos quaisquer, deliciei-me com quantas histórias aquele lugar viveu; quantos santos ali pisaram; quantos papas ali estiveram; quantos “Habemus Papam!” foram ouvidos por dezenas de milhões de pessoas ao longo de todos os séculos! Quantas coisas passaram em minha mente, principalmente o pensamento de encontrar o atual Vigário de Cristo, ou, o “Doce Cristo na Terra”: Bento XVI. Não imaginei que eu teria como Santa Teresinha uma graça especial de ajoelhar-me aos seus pés como ela o fez diante do glorioso Leão XIII. Eu me contentaria em apenas ver de longe aquela batina branca, nem que este olhar durasse apenas um único segundo, mas tudo o que eu queria era ver o Santo Padre. No primeiro dia em que fui ao Vaticano conheci a Basílica de São Pedro por dentro, apreciando cada centímetro daquela majestosa igreja, mas que ainda não fora o suficiente para admirar o quanto ela tem a oferecer em sua plenitude a cada pobre peregrino que lá entra. Em minha cabeça apenas tinha o pensamento: “Quero ver Bento XVI!”. Era o meu maior desejo, algo que infelizmente neste dia não consegui; neste dia, não.

No segundo dia, 09 de fevereiro, voltei à Piazza San Pietro, só que muito mais cedo, por volta das 05:20. Ainda era um pouco escuro, o frio era intenso, algo em torno dos -4º C e eu teria este dia só: não haveria grupos de peregrinos comigo nem guias falando baboseiras históricas e críticas contra a Santa Igreja; estava acompanhado com um piedosíssimo sacerdote a quem pedi que me fizesse peregrinar pela Cidade Eterna de uma forma verdadeiramente Católica. O meu pedido foi atendido. Quem sabe neste dia eu também não veria o Santo Padre? Uma Praça de São Pedro vazia e uma Basílica de São Pedro… silenciosa! No dia anterior, como estive lá em um horário mais elevado, havia milhares de falsos peregrinos, ou melhor, turistas, que, além de fazerem um barulho terrível, pouco se importavam em apreciar cada uma das imagens que lá estavam para elevar as nossas almas aos céus em união com os anjos, para louvarmos a Deus em espírito e em verdade, mas apenas em tirar fotos, conversarem e brincarem. Lembro-me do altar lateral onde o Santíssimo Sacramento é exposto durante o dia inteiro, mas que para entrar, além de não ser permitido tirar fotos, o silêncio é obrigatório, além de uma grande cortina que fecha a vista dos “mundanos” dos que desejam contemplar o Senhor Prisioneiro naquele adorável Sacramento. Vi muitas pessoas ficarem entusiasmadas querendo saber o que tinha atrás daquelas cortinas e dos seguranças na frente delas e, após passarem por aquelas cortinas e se depararem com aquele ostensório que se pode encontrar até na mais pobre capela das mais pobres cidades, perdiam o entusiasmo e davam as costas, achando que ali veriam algo de “estupendo” e “extraordinário”. Não sabem eles que aquele “pedaço de pão” vale mais que todas as igrejas do mundo e todas suas riquezas juntas.

Voltando então ao meu segundo dia na Città Eterna, um silêncio envolvente pairava na Basílica de São Pedro, ouvia-se, e de forma bastante suave, as vozes ressoando em diversos pontos da basílica com os sacerdotes rezando a Santa Missa. Que coisa belíssima! Em cada altar havia um sacerdote rezando a Santa Missa e um pequeno grupo de fiéis, religiosos e seminaristas assistindo-as. O que mais achei interessante é que vi dois sacerdotes rezando a Santa Missa no Rito de São Pio V, e nestes altares, havia um grupo maior assistindo-a que nos altares em que eram rezadas as Missas com o Missal do Papa Paulo VI. Estes fieis devem agradecer ao Bento XVI pelo Motu Proprio. Dirigi-me à sacristia da basílica com o referido sacerdote que se preparava para celebrar a Missa, e lá me encantei com o tom “solene” que lá existia: diversos bispos e monsenhores paramentados com suas vestes talares, sobrepelizes e mozetas sentados, conversando amigavelmente sobre qualquer coisa. Alguns cardeais também com suas batinas cardinalícias entrando na sacristia. Passou em minha cabeça: “Este é o Vaticano de Bento XVI!”. Quanta diferença entre a postura litúrgica e cerimonial de Bento XVI e a dos seus antecessores. Com certeza ali haveria algum evento importante com ninguém menos que… o Papa! Sim, haveria uma audiência com os membros da Ordem de Malta. Logo pensei: “Irei ver o Papa!”. Após andar por alguns minutos pela basílica procurando algum altar livre para poder assistir ao santo sacrifício da Missa, encontramos um, cujo santo infelizmente não recordo. Digo que aquela foi a Missa mais piedosa que já assisti em minha vida, afinal, eu não me encontrava no Brasil, onde, infelizmente, a maioria das igrejas são de péssima arquitetura e que não inspiram em nada a piedade e pensamentos santos, nem muito menos elevam nossas almas a Deus. O tempo que durou a Santa Missa foi suficiente para que a basílica já se enchesse de forma razoável de turistas: o silêncio já tinha sido quebrado. Tínhamos que voltar para a sacristia, alguns locais da basílica estavam sendo fechados por causa da audiência que iria haver com o Papa Bento XVI, então tivemos que contornar um pouco por outros lugares. Passamos por vários turistas que viam um sacerdote devidamente paramentado “passeando” pela basílica, o que chamava bastante atenção, principalmente dos asiáticos que lá se encontravam, o que fez com que eles tirassem fotos nossas – digo “nossas” porque eu estava sempre ao lado dele segurando um suporte de galhetas – digo até que estas fotos comigo e este sacerdote devem estar em algum ou alguns computadores do continente asiático . Após sairmos da sacristia, vi um cardeal com suas vestes talares se dirigindo a ela, ele olhou para nós, sorriu e acenou com a cabeça. Uma coisa tão simples e comum, mas que de alguma forma não esquecerei jamais. Pequenos detalhes desta peregrinação marcou-me profundamente. A basílica estava sendo “fechada” em diversos pontos. Tive pena dos turistas que resolveram tirar este sábado para a conhecer, pois ela foi fechada de tal forma que as pessoas de fora tiveram apenas poucos metros quadrados para encherem suas câmeras de fotos, enquanto o acesso à basílica não estava restrito aos membros da Ordem de Malta e os seus familiares. Todos eles se dirigiam à parte central e ao longo corredor logo da entrada da basílica para se assentarem e esperarem a chegada do Santo Padre. Como eu estava ali com um sacerdote e já me encontrava por dentro da área restrita – já que tinha chegado bastante cedo – esperamos por algum tempo a chegada do Papa, o que foi em vão. O Papa ainda iria demorar a chegar. Resolvemos sair do Vaticano, tomar um café e começar a nossa peregrinação, talvez eu pudesse ver mais tarde o Santo Padre… de alguma forma que não sabia como, mas iria. Passadas as horas, após uma santa peregrinação pela Cidade Eterna, retornamos à Piazza San Pietro, já era noite, estava mais frio que pela manhã e não havia ninguém mais, apenas eu e o sacerdote mais uma vez. Nos aproximamos do Obelisco e conversamos um pouco, olhando para a Basílica de São Pedro, belissimamente iluminada naquela noite fria de inverno europeu. Voltados para ela, rezamos alguns “sanctus, sanctus, sanctus“ e algumas outras orações pelo Santo Padre. Quando nos demos conta, as luzes do seu apartamento estavam acesas. Em todo o prédio, apenas as luzes da janela de seus aposentos estavam acesas. Logo imaginei: “Agora eu verei o Papa, nem que seja apenas uma sombrinha ou um pedaço de sua alva batina”. Foi em vão, esperamos um pouco por tamanha graça, mas não vimos o Santo Padre. Eu iria vê-lo, não em Roma, mas em Milão, dois dias depois. Não pessoalmente, mas pela televisão. Não dando uma bênção ou exortando os fieis católicos, mas… (…). Dois dias depois eu me encontrava em Milão, estava no hotel preparando-me para jantar, quando resolvi entrar no Facebook e enviar algumas fotos que eu havia tirado até então, quando vi uma belíssima foto do Santo Padre sentado em seu trono. Eu não tinha lido nada direito, apenas vi de relance algo como “te apoiamos Bento XVI”. Estranhei e resolvi ler o que tinha escrito, foi quando vi que o Papa havia renunciado. O meu sangue gelou, fiquei paralisado, foi como perder um pai. De alguma forma senti uma dor maior que se o Papa tivesse morrido. Não é todo dia nem em todos os pontificados que vemos um Sucessor de Pedro renunciar. Eu apenas quis saber o porquê do Papa ter feito aquilo! Assim como os fiéis de todo o mundo se sentiram órfãos – digo os fiéis ao Santo Padre – com este ato repentino e chocante daquele a quem nos fazia sentir confortáveis e “seguros” debaixo de suas mãos. A melhor definição para a renúncia do Santo Padre Bento XVI é: “Perdemos um pai”. Procurei ligar a televisão e já estava em algum canal que mostrava o Santo Padre lendo em latim o texto de sua renúncia. Um dos monsenhores que também apareciam no mesmo ângulo da câmera focada no Santo Padre mostrava-se surpreso ao ouvir algumas partes do texto Papa. Em sua face notava-se uma certa apreensão. Não digo que a minha impressão foi diferente. Posso bendizer que vi o Papa, não como eu esperava, mas de outra forma: enquanto eu saí do Brasil na esperança de ver o Vigário de Cristo, gloriosamente reinante, na esperança de que ele vivesse tanto ou mais que S. Pedro, o vi deixando o ministério Petrino. Não fiquei decepcionado com este acontecimento, pelo contrário, aumentei a minha estima por Bento XVI. Se eu já o admirava e tinha grande estima antes de sua renúncia, passei a tê-la em dobro após o fatídico acontecimento. É em momentos como estes que os homens mostram o seu verdadeiro caráter. Joseph Ratzinger, Bento XVI mostrou a sua fortaleza e abandono nas mãos da Divina Providência de Deus. O que está por trás dos desígnios de Deus para permitir tal renúncia, que, a olhos humanos, chega a beirar o “inaceitável”? A Divina Providência permitiu que tal fato ocorresse, mas devemos ter um espírito sobrenatural diante disto tudo, por mais que as circunstâncias mostrem que estamos rolando ladeira à baixo, e acreditar que o Divino Espírito Santo não abandonará jamais a sua Santa Igreja, Esposa de Cristo, Filho Único de Deus Pai. Hoje, o sucessor de Pedro é o Santo Padre Francisco, o mais novo humilde servo da vinha do Senhor. Devemos rezar sempre por ele e seu pontificado, para que sempre mantenha-se firme no Ministério Petrino e sensível à Vontade Divina, para que em tudo sejam cumpridos os desígnios de Deus para a Santa Igreja. Ouvi uma vez um bispo conhecido meu, em uma conversa, chamá-lo de “Bento XVI Magno”, e completou dizendo que futuramente, as suas obras serão mais estimadas e estudadas. Concordo com ele. Os fiéis, principalmente os sacerdotes e bispos atuais, diferente deste bispo que conheço, não conseguem reconhecer a importância que Bento XVI teve na história da Igreja. E realmente, entrou para a história. Futuramente, quem sabe, não poderemos invocá-lo como um…

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