Preparação para a Confissão

confissao

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc
3, 1-6)

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São João Batista “percorreu toda a região do Jordão, pregando (κηρύσσων) um batismo de conversão para o perdão dos pecados” (v. 3). Ele chamava as pessoas a um “batismo de conversão” (βάπτισμα μετανοίας) – isto é, a um arrependimento de coração –, preparando o povo para o “perdão dos pecados” (ἄφεσιν ἁμαρτιῶν), que Jesus, o próprio Deus feito homem, viria trazer à humanidade.

Essa mesma sequência é notável na estrutura do sacramento da Penitência: a primeira parte são os atos do penitente, que, arrependido de seus pecados, implora a misericórdia divina; a segunda, os atos do confessor, que, atuando em nome de Cristo, perdoa as faltas ao pecador.

Os atos do penitente são o principal objeto de exame deste Testemunho de Fé. Podem ser separados em três partes, como consta no Catecismo da Igreja Católica, § 1450:

1. Em primeiro lugar, portanto, vem a contrição. Com a inteligência, o penitente reconhece que pecou – é o exame de consciência; com a vontade, detesta o que fez – é a contrição propriamente dita; com essa mesma vontade, promete não mais pecar – é o propósito de emenda.

Para saber se algo é pecado, não é necessário fazer um curso de ética (muito embora um conhecimento básico da chamada “teologia moral” seja vivamente recomendado a todos os cristãos); basta ter fé no Deus que revela o que é bom e o que é mau, nos Dez Mandamentos, por exemplo.

Ilustra bem essa lição um episódio da vida de São José de Anchieta. Atendendo, no leito de morte, a uma índia conversa à fé cristã, ele perguntou-lhe se tinha ela um último pedido a fazer, antes de partir à vida eterna. A resposta da índia foi cômica: o que ela queria mesmo era uma sopa de dedinho de criança, a qual, porém, ela renunciava de bom grado, por não agradar a Deus. Mesmo tendo crescido a vida inteira acostumada às práticas canibais de sua tribo, essa indígena abandonou-as todas, só para contentar a Deus. Do mesmo modo, por exemplo, ainda que a um olhar viciado as drogas ou a prostituição pareçam boas ou agradáveis, pela fé sobrenatural, o penitente é levado a reconhecer que o seu termo é a perdição e a morte.

Para arrepender-se, não é necessário que se sintam externamente grandes abalos ou que se derrame um rio de lágrimas pelo que se fez; basta que, com uma vontade determinada, o penitente deteste profundamente os seus pecados e esteja disposto a jamais cometê-los de novo. Na verdade, da firmeza desse propósito depende a própria validade da Confissão sacramental. Sem uma determinação de abandonar o pecado firme, eficaz – isto é, “o penitente deve estar decidido a empregar todos os meios possíveis e indispensáveis para evitar o pecado” – e universal – ou seja, que se estenda a todos os pecados mortais, de uma só vez e para sempre –, não há absolvição que restitua a graça à alma [1].

Além disso, a graça que se recebe na Confissão é proporcional ao arrependimento que tem o penitente, como explica o Pe. Royo Marín:

Isso explica por que tantas pessoas, mesmo se confessando frequentemente, estejam decaindo cada vez mais na vida da graça, até o ponto de abandonarem a Igreja. Elas se confessam sim, mas com tanto desleixo, que, pouco a pouco, vão “esfriando” e perdendo até o que tinham (cf. Mt13, 12).

2. Em segundo lugar, parte-se à acusação dos pecados. O termo “acusação” não é casual. O sacramento da Penitência é como um tribunal, no qual o pecador é, ao mesmo tempo, réu e promotor – não advogado. O penitente, portanto, não deve escusar-se, tentando “livrar a sua pele” ou diminuir a sua culpa. Como um promotor, ele simplesmente acusa o que fez, sem desculpas – deixando nas mãos do misericordiosíssimo Juiz a parte da sentença.

A acusação que se faz deve ser íntegra, i.e., “o fiel tem obrigação de confessar, na sua espécie e número, todos os pecados graves, de que se lembrar após diligente exame de consciência, cometidos depois do batismo e ainda não diretamente perdoados pelo poder das chaves da Igreja nem acusados em confissão individual” [3]. Não é necessário revelar todas as circunstâncias em que se deram os pecados, prolongando desmesuradamente a confissão, mas tão somente aquelas que mudam a espécie do pecado. Explica o Pe. Del Greco:

3. Por fim, chega-se à etapa da satisfação, que consiste em reparar o dano que se causou com o pecado cometido. Normalmente, as penitências impostas pelo sacerdote são simples, como rezar um Pai-Nosso, uma Ave-Maria ou um Salmo penitencial. O fiel, porém, pode generosamente acrescentar outras práticas penitenciais que o ajudem a viver em contínuo espírito de arrependimento.

Depois disso, o sacerdote traça sobre o fiel o sinal da cruz e, agindo in persona ipsius Christi, perdoa-lhe os pecados. É a grande alegria do tribunal da Penitência: todo réu que arrependido nele entra, jamais é condenado, mas sempre absolvido. Graças sejam dadas a Cristo por Sua infinita misericórdia!

Referências

1. DEL GRECO, Teodoro da Torre. Compêndio de Teologia Moral. São Paulo: Paulinas, 1959, p. 566.

2. ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Perfección Cristiana. Madrid: BAC, 1962, p. 418.

3. Código de Direito Canônico, cân. 988, § 1.

4. DEL GRECO, Op. cit., pp. 570-571.

Fonte: padrepauloricardo.org

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