Papa Francisco, “o que o senhor está fazendo aqui?”

CardealFrancisDolan

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com – O Cardeal Francis George, OMI, arcebispo demissionário de Chicago, certamente não é considerado um tradicionalista, embora ele deva ser elogiado por restaurar alguma sanidade nos últimos 17 anos depois que seu predecessor se tornou um herói para os heterodoxos.

Sua Eminência é o último prelado a expressar receios com o Papa Francisco, conforme mostrado em uma nova entrevista do cardeal a John Allen. Perto do final da entrevista, o Cardeal George diz o seguinte sobre o Papa Francisco: “Certamente eu o respeito como papa, mas não há ainda um entendimento de ‘O que o senhor está fazendo aqui?’”

Como o Presidente da Conferência Episcopal Polonesa, o enfoque de George recai sobre verdadeiro/falso ao invés de “esquerda”/”direita”…

Para o registro dos eventos atuais, apresentamos abaixo alguns trechos da entrevista que tratam do atual Bispo de Roma:

* * *

Cardeal Francis George.

Falemos sobre o Papa Francisco. Recentemente o veterano escritor italiano Sandro Magister disse que muitos americanos parecem “inquietos” com Francisco, e deu a entender que os bispos americanos talvez tenham se tornado defensores da tradição, em vez do Vaticano sob este papa. O que o senhor entende dessa afirmação?

Espero que ele esteja errado! Não é porque eu não confie nos bispos americanos, eu confio, mas essa é uma declaração muito abrangente sobre o papa e o Vaticano.

O senhor está preocupado de que haja um abandono geral da tradição?

Não acho que exista um abandono geral da tradição. O papa disse que ele quer que todas as perguntas sejam feitas e foram, assim ele tem conseguido o que quer, e agora ele tem que resolver o problema. Ele mesmo disse que papa tem o carisma da unidade, e ele sabe muito bem que é a unidade ao redor de Cristo, não ao redor dele. Portanto, a tradição que nos une a Cristo tem que ser a norma. A maneira como ele a interpreta, e como alguém talvez interprete, é o que você obtém em conversas que moldam um governo.

Posso ver por que algumas pessoas talvez estejam aflitas. Se você não pressionar, ele [o Papa] parece colocar em cheque o ensinamento doutrinal bem recebido. Mas quando você olha novamente para ele, especialmente quando você escuta as suas homilias em particular, você vê que não é o caso. Muito frequentemente quando ele diz aquelas coisas, ele as está colocando em um contexto pastoral de alguém que está preso em um tipo de armadilha. Talvez a afinidade esteja expressa de uma maneira que deixa as pessoas especulando se ele ainda defende a doutrina. Não tenho motivos para crer que ele não o faça.

Até o Sínodo dos Bispos, em outubro, boa parte das pessoas do que geralmente podemos chamar de campo “conservador” parecia inclinada a dar a Francisco o benefício da dúvida. Mais tarde isso pareceu ser menos o caso, com algumas pessoas atualmente vendo o papa sob uma luz mais crítica. O senhor também pensa assim?

Acho que provavelmente isso seja verdade. A questão é levantada: por que ele mesmo não esclarece essas coisas? Por que é necessário que apologistas tenham que arcar com a responsabilidade de tentar dar a melhor cara possível às declarações? Será que ele não percebe as consequências de algumas de suas declarações, ou até mesmo de suas ações? Será que ele não percebe as repercussões? Talvez não. Não sei se ele está ciente de todas as consequências de algumas das coisas que ele disse e fez que colocam essas dúvidas nas cabeças das pessoas.

Essa é uma das coisas que eu gostaria de ter a chance de perguntar a ele, se um dia eu conseguir. O senhor percebe o que aconteceu, apenas com aquela frase ‘Quem sou eu para julgar?’ Como ela tem sido usada e deturpada? Ela é muito deturpada, porque ele estava falando sobre alguém que já tinha pedido misericórdia e recebido a absolvição, uma pessoa que ele conhece bem. Isso é totalmente diferente de falar de alguém que exige aceitação ao invés de pedir perdão. Ela é deturpada constantemente.

Isso tem criado expectativas ao redor dele que possivelmente ele não pode satisfazer; é isso o que me preocupa. Em certo momento, as pessoas que o pintaram como uma peça chave em seus cenários sobre mudanças na Igreja descobrirão que ele não é assim. Ele não seguirá nessa direção. Então, talvez ele tenha não apenas desilusões, mas oposição que poderá ser prejudicial à eficácia de seu magistério.

Será que os bispos americanos não teriam a função de dar esse feedback, de ajudá-lo a compreender como essas coisas estão sendo recebidas?

Acho que esse é o papel dos bispos. Não acho que seria bom fazer isso como uma coisa nacional. Nunca somos uma Igreja nacional, nem neste país ou em algum outro lugar. Não seria bom dizer: “os bispos americanos versus o Vaticano”. Os bispos individualmente deveriam assumir a sua responsabilidade e fazer o que eles têm que fazer. Se existe algo que nos afeta coletivamente, então, talvez deveríamos falar coletivamente. Mas sobre algo como esse tópico, ou seja, as impressões deixadas por causa das declarações sem explicação do papa, não creio que uma conferência como um todo deveria fazê-lo por si para “corrigir” o papa ou para decidir que eles vão fazer isso. Podemos falar, e as pessoas o fazem, e então decidir individualmente se deveríamos encontrar alguns meios de chegar ao papa.

Penso que vários bispos tentaram fazer justamente isso. Se eles tiveram sucesso ou não, não sei, nem como ele mesmo recebe essas notícias. Isso é completamente desconhecido, não é mesmo? Ouvi dizer que às vezes quando você ia ao Papa Bento com notícias que ele não gostava de ouvir, ele não as ouvia muito bem.

Houve a famosa entrevista com o Cardeal [Joachim] Meisner, que disse que em 2009 ele foi até Bento em nome de vários cardeais para sugerir algumas mudanças de pessoal no Vaticano, e Bento não queria ouvir sobre isso.

Sim… Der mensch bleibt. [Nota: uma frase em alemão que diz mais ou menos que um cargo não tira a personalidade humana de uma pessoa.] Não sei como este papa reage a isso. Antes que tentasse fazer isso, seria conveniente dizer às pessoas muito próximas a ele que teriam alguma noção sobre isso ser útil ou prejudicial.

Você não quer incentivar qualquer tendência de ver os bispos americanos como um contrapeso para o Vaticano sob Francisco?

Não temos um mandato de Jesus para ser o contrapeso da Santa Sé!

Precisamente agora o seu enfoque reside na sua saúde. Se as coisas mudarem e o senhor tiver um tempo adicional, o senhor tem um próximo ato em mente?

Tenho um livro vindo da tradição intelectual católica, da Catholic University Press… você sabe, havia muitos tópicos importantes nos quais eu estava muito interessado em um momento ou outro. Alguns deles têm a ver com epistemologia, porque sempre fui fascinado pelo que podemos saber, e porque pensamos que podemos. Em teologia, sempre fui interessado em escatologia.

Para mim é interessante que este papa fale sobre esse romance, “Lord of the World” [“Senhor do Mundo”] Essa é uma pergunta que quero fazer-lhe. Como o senhor concilia o que o senhor está fazendo com o que o senhor diz ser a interpretação hermenêutica do seu ministério, que é esta visão escatológica de que o Anti-Cristo está entre nós? O senhor acredita nisso? Eu adoraria perguntar ao Santo Padre. O que isso significa? Em certo sentido, talvez isso explique porque ele parece estar com pressa. Ninguém parece interessado nisso, mas acho isso fascinante, porque achei o livro fascinante.

Li quase por acaso quando estava no ensino médio. Ele foi escrito em 1907, e ele tem viagens aéreas, ele tem tudo de moderno. Ele é realmente estranho porque parece como se estivesse olhando para os nossos tempos, significando exatamente agora. Será que o papa acredita nisso? Agora, isso é muito mais interessante do que minha fala de que o meu sucessor morrerá na prisão. O que o papa acredita sobre o fim dos tempos?

Escatologia deve ser um projeto que eu gostaria de continuar. Ratzinger, como vocês sabem, escreveu um livro sobre escatologia e provavelmente teria continuado se não fosse eleito papa. Li o livro dele, e gosto de todas as coisas, é útil e não depende dos seus próprios interesses.

Em relação ao papa, espero que antes e morrer eu tenha a chance e perguntar-lhe: como o senhor quer que compreendamos o seu ministério, quando o senhor colocou isso diante de nós como uma chave?

Agora o senhor mencionou duas vezes coisas que o senhor gostaria de perguntar ao papa. Parece-me como se o senhor realmente gostaria encontrar-se com ele pessoalmente.

Sim. Primeiramente, eu não o conhecia bem antes de sua eleição. Eu o conhecia através dos bispos brasileiros, que o conheciam bem, e fiz-lhes muitas perguntas. Desde a eleição, não tenho tido a oportunidade de ir a quaisquer das reuniões ou consistórios porque tenho feito tratamento e eles não querem que eu viagem. Eu não o vejo desde que ele foi eleito.

Eu gostaria apenas de conversar com ele. Agora é menos importante, porque não estarei no governo, mas deve-se deveria governar em comunicação com e sob o sucessor de Pedro, assim, é importante ter algum encontro de mentes, algum entendimento. Obviamente, penso que somos pessoas muito diferentes. Sempre senti uma afinidade natural com o Cardeal Wojtyla, João Paulo II… uma afinidade muito profunda, de toda forma, da minha parte. Ele tinha a capacidade de fazer isso com milhares de pessoas. Com o Cardeal Ratzinger, havia uma distância, mas também um profundo respeito. Não conheço o Papa Francisco bem o suficiente. Certamente eu o respeito como papa, mas ainda não existe um entendimento sobre “O que o senhor está fazendo aqui?”.

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