Felizes os que creram sem ter visto!

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo
20, 19-31)

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Neste domingo, a liturgia proclama o Evangelho da aparição de Cristo Ressuscitado a São Tomé. A princípio, esse apóstolo queria uma experiência sensível com o Senhor: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei” (v. 25). Depois, no entanto, ele faz a mais bela e perfeita profissão de fé do Novo Testamento, reconhecendo explicitamente o senhorio e a divindade de Cristo: “Meu Senhor e meu Deus!” (v. 28). Contemplando com os olhos a humanidade gloriosa de Jesus, São Tomé transcende, vai além, e crê que aquele homem é, ao mesmo tempo, Deus e Senhor.

A experiência desse apóstolo ensina-nos que a virtude da fé é muito superior à experiência dos sentidos — verdade que fica patente, por exemplo, no mistério da Eucaristia: embora vejamos, toquemos e degustemos a aparência de pão, a palavra de Cristo, “Isto é o meu corpo” (Mt 26, 26), diz-nos que a partícula consagrada deixou de ser pão para converter-se no Seu próprio Corpo. Santo Tomás de Aquino expõe com clareza essa realidade no hino eucarístico Adoro te devote, quando canta: “Visus, tactus, gustus in te fallitur, / Sed auditu solo tuto creditur — A visão, o tato e o paladar falham com relação a Vós, / Mas só de ouvi-Lo em tudo creio”.

O itinerário da fé, portanto, indica uma passagem do corpo à alma e do sensível ao espiritual. No início de nossa conversão, a fé pode começar baseando-se na experiência dos sentidos externos. Passamos a acreditar por um fascínio com os milagres operados pelo poder de Cristo: fomos a um grupo de oração e vimos um paralítico andar, um cego enxergar ou um possesso ser livre do espírito do mal. O processo também pode começar através dos sentidos internos. Acreditamos porque recebemos uma consolação ou ficamos “tocados” com um momento de oração. Mesmo que venham de Deus, todas essas coisas estão muito ligadas a sensações físicas e, por isso, são passageiras. Para crescer na fé, a alma precisa purificar-se e colocar a sua fé principalmente na palavra de Cristo, que nos é transmitida pela Igreja, pelos santos e pelos Papas. Os milagres e as consolações de Deus são como muletas de que precisamos prescindir, a partir de um determinado momento, para começarmos a caminhar de verdade.

Por isso, a Carta aos Hebreus diz que Cristo é o “autor e consumador da nossa fé” (Hb 12, 1), Ele que “não pode enganar-se nem enganar” [1] e que, vivendo na intimidade da Santíssima Trindade, veio dar-nos a conhecer os mistérios do Céu.

No final do Evangelho de hoje, o Senhor declara “bem-aventurados os que creram sem ter visto” (v. 29). Essa mesma bem-aventurança é proclamada em um belo trecho da Primeira Carta de São Pedro:

Esse texto do primeiro Papa dirigido aos primeiros cristãos é muito precioso porque anima os fiéis, lembrando que as tribulações e perseguições do tempo presente são passageiras, mas a fé em Cristo é uma fonte de “alegria inefável e gloriosa”. Deus quer que também nós cresçamos “de fé em fé” (Rm 1, 17), até conhecermos, ainda aqui na terra, a bem-aventurança de crer sem ter visto.

Para tanto, Deus nos deu a Si mesmo na Comunhão, a fim de que, recebendo-O com fé, possamos unir-nos intimamente a Cristo Ressuscitado e progredir cada vez mais na vida espiritual. Quem quer que se dedique generosamente a uma fervorosa ação de graças após a Comunhão — padres e leigos, religiosos e religiosas, enfim, todo o povo de Deus — perceberá como, pouco a pouco, Nosso Senhor vai aumentando e robustecendo a nossa fé, até que cheguemos à Sua mesma estatura.

Fonte: padrepauloricardo.org

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