Especial Apologética: 15 – Deve a Igreja esquecer o que não está escrito?

Por todos é conhecido que tantos movimentos evangélicos veneram as Sagradas Escrituras com uma reverência e amor apreciáveis. Deles, creio eu, bem podem aprender os católicos que, por um motivo ou por outro, não levam à prática aquelas palavras do último Concílio Ecumênico da Igreja, a saber, o Vaticano II, quando ensina que “É tão grande o poder e a força da Palavra de Deus, que constitui o sustento e vigor da Igreja, firmeza de fé para seus filhos, alimento da alma, fonte límpida e perene da vida espiritual… Os fiéis devem ter fácil acesso à Sagrada Escritura” (DV 21-22).

Também é conhecido por todos a rejeição que estes nossos irmãos manifestam, em geral, por tudo aquilo que não se encontra explícita ou, ao menos, implicitamente nas Sagradas Escrituras.

Coincidimos com estes irmãos no amor e na veneração às Sagradas Escrituras, porém diferimos quando eles dizem que somente aquilo que se encontra nas Escrituras é digno de ser tomado como mensagem certa de Deus para nossa salvação. O católico afirma que a Palavra de Deus escrita está contida, sim, exclusivamente nas Escrituras, mas que a Palavra de Deus não é somente aquela que se pôs nas letras, sendo que a Palavra de Deus excede as Escrituras: a prova está em que Jesus, o grande revelador do Pai, “fez e disse muitas outras coisas que não se encontram escritas neste livro”, e que, obviamente, podemos considerar como Palavra de Deus, mesmo não escrita mas oral. Esta Palavra transmitida por Jesus e os apóstolos, oral e literalmente, é chamada tecnicamente Tradição, escrita aqui de propósito com maiúscula, para diferenciar do que entendemos habitualmente por “tradições”, ou seja, costumes de origem mais ou menos desconhecido que se vão repetindo de geração em geração, e cuja autoridade é “que assim se faça” e basta. Semelhantes “tradições”, quando são de caráter religioso, podem ser boas ou más, podem mudar ou permanecer, podem aumentar ou diminuir, podem desaparecer.

A Tradição (maiúscula) da Igreja tem sua origem em Jesus Cristo e os Apóstolos e se entrega de geração em geração por meio da pregação e celebração dos mistérios da Salvação, guiado pelo Espírito Santo. A palavra “tradição” , como se sabe, vem do latim “tradere”, que significa “entregar”. Neste sentido as Sagradas Escrituras são parte da Tradição que temos recebido de nossos antepassados na fé; dessa forma, a Bíblia é uma mensagem que tem sido “entregue” de geração em geração, sob a guia do Espírito Santo.

Porém, segundo temos dito, os cristãos assim chamados “evangélicos” negam que devamos prestar ouvidos a qualquer outra “Tradição” que não seja esta Tradição escrita, ou seja, a Bíblia. A Igreja Católica, ao contrário, sustenta que aquela Sagrada Tradição (ou “doutrina de salvação entregada”) que devemos manter e conservar é mais ampla que a Sagrada Escritura, e, digamos desde já, não se opõe a ela nem a contradiz, já que se trata de uma mesma Tradição que se “transmite” sob formas distintas: escrita e oral. Creio que não há melhor maneira de dizê-lo como o disse o próprio São Paulo: “Irmãos: permaneçam firmes e mantenham as tradições que receberam como ensinamento seja de palavra ou por nossas cartas” (2 Tes 2,15). Algumas traduções desta passagem, diga-se de passagem, vertem a palavra do texto original “paradoseis” como “doutrina”, a qual é perfeitamente lícito no caso de não se tratar de uma tradução tendenciosa: não se deve esquecer que a palavra “paradoseis” significa inequivocamente “tradição” (à margem do significado de “traição”, “detenção” que não se aplica aqui), da raiz verbal “para-didomi”, e que é a mesma palavra usada por Jesus ao dizer aos fariseus: “assim tens invalidado a Palavra de Deus por causa de vossas tradições (?paradosis?)”.

Como se vê, a palavra “tradição” pode ser tomada como sinônimo de doutrina de Jesus e dos apóstolos e também como sinônimo de doutrinas dos fariseus ou de seus antepassados. Em uma palavra, o termo “tradição” pode ser usado em um sentido positivo e também em um sentido mais pejorativo, de onde não tem lugar se escandalizar quando na Igreja se fala de Tradição, como falava S. Paulo. Em 2 Tes 3,6 também se usa o termo grego “paradosin”, que, outra vez, em algumas versões espanholas se traduz como “doutrinas”:…”conforme as doutrinas que recebeste de nossa parte”. Também vale aqui o que dissemos para 2,13: sim, podemos traduzir “paradosin” como “doutrina”, mas não percamos de vista que o que diz o texto original é: “… conforme a tradição de que receberam de nossa parte”; poderíamos agregar que o texto de Mt 15,3-6, onde temos no original a mesma palavra que em 2 Tes 3,6, ou seja, “paradosin” sendo traduzida da mesma forma por todas as versões espanholas – incluindo a Reina de Valera – como “tradições”. Não perguntamos: “porquê não traduzir aqui ?paradosin” como ?doutrina?, como se traduz em 2 Tes 3,6, que faz referência a uma realidade similar – ensinamentos, tradições, doutrinas? Certamente a suspeita de imparcialidade da tradução não é de todo infundada: parecia que quando o termo “paradosin” aparece para indicar o ensinamento de Jesus e dos apóstolos se traduz como “doutrinas”, entretanto quando se trata de ensinamentos e preceitos humanos dos judeus se traduzem como “tradições”. Repetimos mais uma vez que, se bem que o tradutor pode eleger os sinônimos que creia conveniente, contudo neste caso me parece que se cumpre o dito “traduttore tradittore”, pois pode levar os leitores mais simples a pensar que “tradição” é uma sorte de “má palavra” que faz alusão às tradições humanas, ao contrário da doutrina de Jesus, quando de fato o texto original trata de uma mesma palavra, a qual se cobra seu valor positivo ou negativo segundo o contexto da mencionada tradição. Porém, não é tanto sobre questões de exegese que queria atrair a atenção do leitor, senão mais sobre a história da doutrina cristã em seus primeiros passos, logo que recebeu o Espírito Santo no Pentecostes.

Há um trecho óbvio e registrado nas Sagradas Escrituras que “há muitas outras coisas que fez Jesus que, se fossem escritas uma por uma, penso que não caberiam nem no mundo todo os livros que se precisariam escrever” (Jo 21,25). Jesus passou os anos de sua vida pública pregando e fazendo o bem, coisa que logo fizeram os apóstolos do Senhor, que são considerados por todas as igrejas cristãs como fontes de revelação, sendo assim, a revelação pública do mistério de Jesus Cristo culmina com a morte do último dos apóstolos, que foi João.

Nada se pode dizer, baseado em nenhum texto bíblico, que os autores dos textos do Novo Testamento quiseram limitar o ensinamento de Jesus ou dos apóstolos ao que eles estavam escrevendo. Ou, colocando de outra maneira, nem a Mateus, Marcos, Lucas, João, Pedro, Paulo, Tiago, Judas nem a nenhum outro que tenha podido formar parte dos autores do Novo Testamento jamais lhes ocorreu pôr por escrito tudo o que Jesus ensinou, pois seria algo que nunca acabaria, como diz João (21,25). Jesus tampouco lhes havia mandado escrever nada. Nem sequer todos os apóstolos escreveram algo, somente uns cinco, alguns dos quais escreveram apenas duas ou três páginas (Carta de Judas, Tiago, e duas cartas de Pedro).

Jesus, entretanto, deu aos seus apóstolos o mandamento de ir por todo o mundo anunciando o Evangelho a toda criatura, “ensinando-lhes a guardar tudo que os tenho mandado” (Mt 28,20). Os apóstolos e também os outros discípulos do Senhor, uma vez recebido o Espírito Consolador, cumpriram com o que o Senhor os havia ordenado e pregado dia e noite, ainda que ao preço de seu sangue, o que eles tinham “visto e ouvido” acerca de Jesus. Agora bem, como fica claro que os apóstolos fizeram isto pregando, entregando oralmente o mistério da Salvação, já que, como dizemos, somente alguns dos apóstolos, passado muito tempo de pregação, e sem pretender resumir em seus escritos aquilo “tudo” que Jesus os havia mandado (ver acima a citação de Mt 28,20), escreveram coisas daquilo que pregavam (notemos que muitos dos escritos do Novo Testamento são cartas circunstanciais). Com isto queremos dizer que:

  1. A nenhum dos apóstolos jamais ocorreu limitar os ensinamentos de Jesus ao que estavam escrevendo neste momento;
  2. A comunidade cristã do começo não se fundamentou sobre os escritos do Novo Testamento, senão sobre os ensinamentos orais dos apóstolos e discípulos do Senhor;
  3. Milhares de cristãos da Igreja primitiva nunca leram nenhum texto do Novo Testamento.

Poderíamos concluir disto que a comunidade dos primeiros cristãos não conhecia a Palavra de Deus? Claro que não. Conhecia e muito bem, porém para eles (e muitas igrejas particulares durante séculos) a Palavra de Deus foi entregue de maneira oral, ao menos em sua quase-totalidade.

Que sentido dizer por aí que, chegado o tempo, Deus disse que se pusessem por escrito os ensinamentos evangélicos, para que não fossem mal interpretadas ao longo dos anos. Que hoje devemos manter-nos com o que está escrito, que sem dúvida não contém erros, e tudo o mais é perigoso, pouco confiável.

Com respeito a isto dizemos que tal afirmação ainda precisa se demonstrar: não se baseia em nenhum mandamento – ao menos que os que conhecemos – do Senhor, nem em nenhuma decisão de algum Concílio da Igreja (como por exemplo o de Jerusalém, em Atos 15, onde a Igreja decide questões que iam aparecendo e sobre as quais Jesus, aparentemente, não havia deixado uma norma clara de comportamento). Desta forma, a afirmação de que “Deus, vendo que algumas doutrinas corriam o risco de irem se desviando, nos dá os escritos do Novo Testamento” pode soar muito bem para alguns, mas ao menos que conheçamos os pensamentos de Deus diretamente, não podemos defender com nenhum dado histórico nem bíblico, sendo ela uma hipótese. Eu poderia dizer, como hipótese, que não, que esse não foi o pensamento de Deus, que esse não foi o motivo pelo qual apareceram os escritos do Novo Testamento, e quem poderia me dizer o contrário?

Sobre este ponto poderíamos aduzir outros aspectos, porém não é o que concerne agora.

Desejamos situar, pois, que Jesus e os apóstolos disseram e fizeram muitíssimos mais do que está escrito, e que na vida dos apóstolos ocorreram atos importantes que não se encontram escritos (ou alguém, por acaso, pode pensar que o trabalho de Deus se limita ao pouco que o livro dos Atos dos Apóstolos relata, quase exclusivamente, sobre Pedro e Paulo?). E desejamos colocar também que se alguém pensa que o único importante para nós é o que está escrito, esse pensamento não é nem bíblico – não está em nenhuma parte da bíblia, nem sequer insinuado, mas bem ao contrário; nem é tampouco histórico – e nunca ninguém pensou assim até os últimos séculos da nossa era.

Muito bem, suponhamos que na comunidade cristã do começo sucede um ato que não ficou por escrito, e ponhamos já um exemplo para fazer a questão mais prática e entendível: digamos que a mãe do Senhor, conhecida e querida por todos os apóstolos, que havia estado junto a Jesus durante toda sua vida, chegando o dia determinado por Deus… morreu, e que quando foi visitada em sua tumba por algumas pessoas, digamos para os ritos próprios dos funerais judeus, observaram que seu corpo não estava mais. Este fato, que os católicos tomam por uma doutrina, uma “Tradição” (A Assunção da Virgem), a tomamos aqui puramente e exclusivamente como uma suposição, já que, segundo temos visto, certamente sucederam coisas que não ficaram por escrito.

Neste suposto caso, e em todos os demais casos que certamente ocorreram nos milhares de atos acontecidos durante a vida de Jesus e dos apóstolos, e na extensa doutrina de Jesus e dos apóstolos que não foi escrita (porque não “caberiam no mundo os livros que se escrevessem” Jo 21,25), que coisa deveria fazer a Igreja, ou seja, a comunidade dos crentes? Esquecer? Porque deveriam esquecer, se sua missão era precisamente transmitir tudo o que eles haviam “visto e ouvido”? Em quê momento da história da Igreja se tomou a decisão de “esquecer” os eventos que os autores sagrados não haviam deixado por escrito?

Que deve fazer um crente do século XX ao ler 2 Tes 2,13-15?

“Assim pois, irmãos, mantenham-se firmes e conservem as tradições que haveis aprendido de nós, de viva vós ou por carta”.

Baseado em quê princípio devo dizer agora que aquilo que se ensinou “de viva voz” deve ser duvidado e manter somente o que se transmitiu por carta?

Não se deu conta São Paulo do “perigo” que era dizer que se devia obedecer às tradições orais?

* * *

Os católicos, por sua parte, seguem mantendo que se deve conservar ambas doutrinas, a que foi entregue por carta e a que foi entregue oralmente pelos pastores da Igreja; “ambas” doutrinas que são a mesma doutrina comunicada por distintos canais, porém que se complementam, aperfeiçoam-se, explicam-se mutuamente. Assim era no começo e eles não vêem porque agora devam limitar a doutrina ao que está escrito. Se Deus assim ensinasse, por exemplo através de algum dos apóstolos, então haveria que aceitar com gosto. Porém, como dizemos, não existe nenhum motivo que nos permita pensar racionalmente que agora devemos deixar de prestar atenção à Tradição oral.

Em quê consiste esta tradição? Em toda mensagem evangélica da salvação que pregou a Igreja começando pelos apóstolos ao longo dos séculos através de seus pastores, que devem pregar a toda a criação, “ensinando-lhes a guardar tudo o que os havia mandado; e desde aqui eu estou com vocês todos os dias até o fim do mundo”, ainda que desaparecidos todos os apóstolos do Senhor, como por exemplo no século XX… Também hoje Jesus está com aqueles os quais os apóstolos impunham as mãos, os bispos, presbíteros e diáconos (1 Tm 5,22; Tito 1,7; Fl 1,1), que possuem a obrigação de pregar em nome de Jesus, de tal modo que “quem vos ouve a mim ouve, e quem vos rejeita a mim rejeita, e rejeita aquele que me enviou” (Lc 10,16).

Querido irmão evangélico que me tem lido até este ponto: agradeço teu interesse e paciência, que falam bem de teu empenho pela verdade que nos livrará a ti e a mim. Te peço que reflita estas coisas, porque são assuntos importantes, de vida eterna. Te agradeço enormemente, tenho grande interesse em fazer-te o bem.

Um abraço a todos em Cristo Jesus

Ponzano Romano, Itália, 2000.

* O Padre Juan Carlos Sack é um sacerdote católico missionário na Rússia, atualmente cursando estudos exegéticos em Roma.

Fonte: www.veritatis.com.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *