É possível que no futuro a Igreja permita a ordenação sacerdotal de mulheres? – Parte 2

  • 123 – Resposta Católica: É possível que no futuro a Igreja permita a ordenação sacerdotal de mulheres? – Parte 2 Data da Postagem: 9 out 2012 | Autor: Mateus | Comentários: 0 comentário
  • Wayback MachineNo programa anterior foram expostos os principais documentos da doutrina católica acerca da impossibilidade da ordenação sacerdotal de mulheres. Neste programa serão apresentados as razões teologais para tanto e o roteiro para a exposição será o documento intitulado “Sobre a resposta da Congregação para a Doutrina da Fé acerca da doutrina proposta na carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis”, abaixo transcrita:

    Existe uma diferença entre doutrina e disciplina. Um ensinamento doutrinal é aquele que o católico deve aquiescer, aceitar interiormente. Já a disciplina, por sua vez, é aquela que o católico obedece, mas pode discordar internamente. A doutrina não permite discussão.

    Nesse caso específico, trata-se de uma doutrina. A Igreja está ensinando que, para uma sadia compreensão da fé católica, existem duas realidades que os católicos devem crer, embora essas realidades pareçam contraditórias entre si. A primeira, derivada da antropologia teológica que afirma que o homem e a mulher têm igual dignidade, enquanto pessoa. A segunda, derivada da realidade eclesiológica que a ordenação sacerdotal é reservada aos homens e não é concedida às mulheres. Estas duas verdades, embora pareçam, não são contraditórias. Para entendê-las é preciso permanecer católico, resistindo à tentação de tornar-se um herege, o católico permanece com o todo.

    Para resolver a tensão criada pela aceitação dessas duas verdades, a própria nota afirma: “… uma correta teologia não pode prescindir nem de um nem do outro ensinamento, mas deve mantê-los juntos; somente assim poderá aprofundar os desígnios de Deus sobre a mulher e sobre o sacerdócio – e, portanto, acerca da missão da mulher na Igreja.”.

    O sacerdócio ministerial não é um privilégio, mas um serviço, uma forma de servir. O Cardeal Joseph Raztinger, em seu livro de entrevistas “O Sal da Terra”, afirmou que a ordenação é uma subordinação, ou seja, quando se é ordenado, concomitantemente torna-se subordinado a algo ou alguém.

    Jesus escolheu os Doze Apóstolos e estes, por sua vez, escolheram homens como sucessores. Trata-se de algo constitutivo da própria Igreja Católica e não é permitido mudar. A nota faz menção a um outro documento da Congregação para a Doutrina da Fé, denominado “Declaração Inter insignores – sobre a questão da admissão das mulheres no sacerdócio ministerial”, que traz justamente um arrazoado de motivos pelos quais não é possível a ordenação sacerdotal de mulheres: 1. O fato da Tradição; 2. A atitude de Cristo; 3. A prática dos apóstolos; 4. Valor permanente da atitude de Jesus e dos apóstolos; 5. O sacerdócio ministerial à luz do sacerdócio de Cristo; 6. O sacerdócio ministerial no mistério da Igreja[2].

    A Carta Ordinatio Sacerdotalis não é um ensinamento ex-cathedra de João Paulo II, porém, tem o caráter da infalibilidade e o seu conteúdo faz parte do Depósito da Fé Católica.

    Para finalizar, é preciso chamar a atenção para um grave erro de tradução ocorrido no livro “O Sal da Terra”, que pode dar margem para interpretações errôneas sobre o tema. Na página 166 encontramos o seguinte texto:

    Recorrendo ao original alemão e dele traduzindo, o texto correto é:

    O convite para cada católico é, portanto, aceitar a realidade de que a Igreja não tem o poder de ordenar mulheres para o sacerdócio porque esta ordem vem do próprio Deus e nenhum homem, nenhum Bispo, nenhum Concílio pode mudar a constituição da Igreja.

    Tradução

    Cardeal Joseph Ratzinger, O Sal da Terra. O cristianismo e a Igreja católica no século XXI: um diálogo com Peter Seewald. Rio de Janeiro, Imago, 2005, pg. 166.

    Texto alemão original

    Nova tradução

    [Der zweite ist, daß] in der Tat in allen Bereichen, die nicht wirklich vom Herrn und durch die apostolische Überlieferung her festgelegt sind, sich ständig Wandlungen vollziehen – auch heute. Die Frage ist eben: Kommt es vom Herrn oder nicht? Und woran erkennt man das?

    Na realidade – ainda hoje – acontecem mudanças constantes em todas as áreas [da Igreja] nas quais não haja uma definição realmente proveniente do Senhor ou da Tradição apostólica. Trata-se então de responder se uma realidade tem ou não sua origem no Senhor e de como seja possível descobrir isto.

    Die vom Papst bestätigte Antwort, die wir, die Glaubenskongregation, zum Thema Frauenordination gegeben haben, sagt nicht, daß der Papst jetzt einen unfehlbaren Lehrakt gesetzt habe.

    Nós, a Congregação para a Doutrina da Fé, demos uma Resposta a respeito da ordenação das mulheres, mas esta Resposta, que foi aliás confirmada pelo próprio Papa, não afirma que o Papa agora tenha realizado um Ato de Magistério infalível (einen unfehlbaren Lehrakt).

    Der Papst hat vielmehr festgestellt, daß die Kirche, die Bischöfe aller Orten und Zeiten immer so gelehrt und es so gehalten haben.

    O que o Papa fez, na verdade, foi constatar que a Igreja, os Bispos de todos os tempos e lugares sempre ensinaram assim e sempre agiram assim.

    Das zweite vatikanische Konzil sagt: Wo das geschieht, daß Bischöfe über sehr lange Zeit hin einheitlich lehren und tun, ist es unfehlbar, ist es Ausdruck einer Bindung, die sie nicht selbst geschaffen haben. Auf diesen Passus des Konzils beruft sich die Antwort (Lumen gentium 25).

    O Concílio Vaticano II nos diz que, quando acontece de os Bispos ensinarem e agirem durante um longuíssimo tempo de forma unitária (einheitlich), temos ali uma realidade infalível; ali se expressa um vínculo que não teria sido criado pelos próprios Bispos. A Resposta refere-se a esta passagem do Concílio (Lumen gentium, 25).

    Es ist also nicht, wie schon gesagt, ein vom Papst gesetzter Unfehlbarkeitsakt, sondern die Verbindlichkeit beruht auf der Kontinuität der Überlieferung. Und tatsächlich ist diese Kontinuität des Ursprungs schon etwas Gewichtiges.

    Como já foi dito, isto não é um Ato de Infalibilidade (Unfehlbarkeitsakt), porém o seu caráter vinculante encontra fundamento na continuidade da Tradição. E, de fato, esta continuidade com a origem é algo de realmente muito importante.

    Referências

    1. http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19951028_commento-dubium-ordinatio-sac_po.html
    2. http://www.doctrinafidei.va/documents/rc_con_cfaith_doc_19761015_inter-insigniores_po.html

    Fonte: Padre Paulo Ricardo

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