Dignidade no Culto, onde está o eixo?

ABUSOSLITURGICOS

Escrevo, como se diz em italiano, “a braccio”, sem Documentos específicos para justificar o que quero dizer… Se o Santo Padre arrisca-se, em seus discursos oficiais, em sair fora do texto e fazer isso, um pobre bispo do interior do RS terá maiores justificativas para o fazer.

Em uma recente postagem sobre a necessidade do respeito às Normas Litúrgicas vigentes e sobre o cuidado que devemos ter para com aquilo que se usa no culto litúrgico, li o comentário de um padre do Norte do Brasil, “das barrancas do Amazonas”, dizendo que eu deveria ir trabalhar naquela região para entender melhor a situação, etc. e só depois falar. Segundo esta visão, então”os pobres” não tem direito a uma Liturgia celebrada segundo os parâmetros exigidos pela Igreja, pelo simples fato de que… são pobres. Bela e inteligente argumentação…: os ossos dos grande santos da Igreja, que viveram não só falando dos pobres, mas uma vida de autêntica pobreza, tais como São Francisco de Assis, o Cura d’Ars e tantos outros devem estar revolvendo-se em suas urnas mortuárias.

Primeiramente, a determinação de onde exerço meu Ministério Episcopal não depende de minha vontade própria. Vou onde a Santa Igreja me diz que eu deva ir. Se tivesse que exercer o Ministério em qualquer outro lugar, iria de bom grado, já que o melhor lugar para se estar e viver é onde Deus quer.

Em segundo lugar, o fato de que alguém viva nas barrancas do Amazonas, ou em uma favela de São Paulo, ou em um morro do Rio de Janeiro, ou em qualquer outro lugar ou situação, não lhe tira o direito de poder participar de uma Liturgia digna e bem celebrada. Como se a situação social, econômica, etc. de determinado lugar e Comunidade pudesse servir de desculpa para o relaxo, para a sujeira e para o descaso litúrgicos. A questão, na verdade, é bem outra. A meu ver, antes de tudo, é uma questão de fé: crer ou não crer no Mistério Eucarístico, tal como a Igreja sempre nos ensinou. A perda do sentido do sagrado reflete na verdade a falta de fé, a idéia de que ao homem deve-se dar tudo e a Deus não se deve dar nada. Melhor ainda, de que o eixo antropológico é muito mais importante do que o eixo teológico. Assim, cabe à Igreja preocupar-se com o homem tão somente pelo homem. Nesta visão, Deus está em segundo plano e não é mais referência para nada e para ninguém. Esta visão, infelizmente dominante em considerável parcela do clero, justifica todas as aberrações litúrgicas que hoje, como células cancerígenas, se espalham nas celebrações, pelo Brasil afora. O pior de tudo é que tal visão se faz sentida não só nos já tradicionais ambientes intra-eclesiais laicizados (sim, há um “tradicionalismo” fundado no chamado “espírito do Concílio Vaticano II”, que ainda predomina em muitos ambientes eclesiais e que vive de um passado idealizado como “glorioso”: o imediato pós Concílio e os anos subseqüentes, período durante o qual tudo era permitido, tolerado, até mesmo incentivado sob o prisma do tal “espírito do Concílio”: experiências litúrgicas das mais aberrantes, magistério dogmático paralelo ao autêntico Magistério da Igreja e outros desvios).

Este princípio centrado exclusivamente no homem também se faz presente, no que se refere à Liturgia, em ambientes considerados alinhados a uma visão mais espiritualista da fé. Aí, tudo é permitido, desde que as pessoas gostem, desde que “faça bem” (qual é, em efeito, este bem procurado? O bem da salvação, da autêntica união com Deus, ou o “bem estar” fundado no pieguismo, em um devocionismo alienante?) àqueles que freqüentam estas celebrações, desde que tragam novamente as pessoas à Igreja, como se costuma dizer. Aí estaria a justificação de tudo: da mesma forma, a pessoa e seus gostos como critério do que é certo ou errado, do que se pode ou não se pode fazer com o Mistério de Deus. A partir deste princípio, agora nestes ambientes mais “espirituais”, tudo se justifica. Portanto, todas as regras e Normas Litúrgicas estão submetidas às vontades não da Igreja, a quem cabe determiná-las e organizá-las, mas sim daquilo que, no momento, se tem como bom e necessário, segundo o critério subjetivo de alguém. Ou seja, deixa-se de lado o eixo teológico e cai-se no eixo antropológico, marcado pelo subjetivismo da decisão de quem decide derrubar um muro de tijolos de papelão com o ostensório nas mãos, depois de ter circulado entre as pessoas que a todo custo tocam no vidro do ostensório, que por sua vez é carregado por um sacerdote com capa pluvial, véu umeral, etc..: incongruências e mais incongruências.

A Liturgia é a obra com a qual Cristo, mediante sinais sensíveis, glorifica o Pai na unidade do Espírito e salva a humanidade, atuando como cabeça invisível da Igreja, por meio de seus ministros, para perpetuar a obra da redenção do mundo.

Nas celebrações litúrgicas, a Igreja oferece o culto público a Deus, de modo que toda a ação litúrgica é obra de Cristo sacerdote e de sua Igreja – ação sagrada por excelência -, cuja eficácia não se vê igualada por nenhuma outra ação da Igreja. A Liturgia, não se pode esquecer, é participação na oração de Cristo e fonte de vida que brota do Salvador. Isto e tão somente isto.

É preciso rezar muito pela Igreja de hoje.

Fonte: www.encontrocomobispo.org

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