Afinal, do que se trata a nova moda # DESAFIO

a-biblia-palavra-de-deus

Pe. Marcélo Tenorio

Multiplica-se pela internet um movimento de desafios chamado de “Lançai a Palavra”. Consiste em alguém desafiar pessoas para que, no espaço de 24 horas, elas coloquem um vídeo na internet “proclamando” a Palavra de Deus e lançando, também, desafios a tantas outras. E, como as pessoas gostam de “novidades”, isso tem se alastrado consideravelmente.

O fato de se fazer uma leitura da Sagrada Escritura, não há nada de mal; como minha mãe dizia, “mais vale um Deus-te-abençoe do que um diabo-te-carregue”. Entretanto é necessário entender não o que se ver, mas o espírito que move e a direção para onde se vai.

Não é novidade para ninguém que após o Vaticano II, houve um vendaval decorrente daquilo que o cardeal Ratzinger chamava de “anti-espírito” do Concílio e que Mons. Lefèbvre chamava, por sua vez, de “espírito mesmo do Concílio” E, com esse vendaval (que Paulo VI morreu e não descobriu por onde ele entrou – basta ler suas palavras angustiadas no décimo ano de seu pontificado, no dia 29 de junho de 1972, Solenidade de S. Pedro e S. Paulo: “ ..por alguma fissura a fumaça de Satanás entrou no Templo de Deus”) entrou também um espírito de romantismo que corrompeu tudo, não deixando nada sem ser atingido pelo seu veneno, sobretudo a Sagrada Liturgia, expressão máxima daquilo que se crer e professa. Ora, se consegue contaminar o que se crer com uma “diabetes espiritual” protestante e romântica, que resultado nós teremos? Quais as consequências disso tudo? Uma protestantização da Fé , da Liturgia e dos Costumes, visto que o romantismo sustenta o protestantismo.

As bases do protestantismo liberal é o romantismo. Toda tese protestante é romântica e não pode ser diferente. Ela não é objetiva, porque abstrata, introspectiva, individualista. Fundamenta-se no subjetivismo da fé que gera o relativismo moral e religioso.

Citemos aqui, como base, Schleiermacher. Friedrich Danill Ernst Schleiermacher. Ele nasceu em 1768, na Breslávia e faleceu em 1834. Em 1797, já em Berlim, foi grande colaborador da revista romântica “Athenaeum”. Em sua teologia orientava as almas para o “sentimento de Salvação em Cristo”. Foi considerado o pai da teologia romântica, sofrendo grande influência dos filósofos Kant , Spinoza, entre outros.

Síntese de sua teologia romântica:

“Há de rechaçar a tendência de estabelecer seres e de determinar naturezas […] a investigar as ultimas causas e a formular verdades eternas […] não deve servisse do Universo para deduzir deveres, ela não deve conter nenhum código de leis […] não pretende, como a metafísica, explicar e determinar o Universo de acordo com sua natureza, ela não pretende aperfeiçoá-lo e consumá-lo, como a moral […] sua essência, não é pensamento nem ação, senão intuição e sentimento.”(1)

Eis o triunfo do subjetivismo romântico em sua doutrina protestante.

“Uma religião não é válida por ser verdadeira, senão porque engendra um sentimento de piedade”, ensinava ele.

A Santa Doutrina Católica, por sua vez se opõe ao subjetivismo romântico, visto que a Fé aqui é entendida e definida como “ adesão da inteligência à Verdade”, como ensina o Aquinate e não um sentimento meramente romântico como pretendia Lutero, seus sequazes e, como vimos, esse aí, doutor de coisa-nenhuma.

Para Santo Tomás há uma correlação profunda e rigorosa entre Fé e Razão, antídotos contra um fanatismo perigoso ou um racionalismo etéreo. Aliás, desde a antiguidade se tem a tentação de separar a Fé da Razão. O germe do protestantismo sempre presente desde a origem das civilizações, visto que proveniente do pecado original, inspirado pelo “diábolos”, o divisor.
Encontramos entre os gregos já duras críticas contra essa dissociação. Heráclito, Pitágoras e Xenofontes, já falavam sobre isso.

Noutros momentos da história religiosa, percebemos um movimento interessante: ora, a Fé que busca a razão ( isso bem presente na época dos Santos Padres), ora a Razão que busca a fé ( época escolástica tomista). Aqui entra S. Tomás com a sua “Veritas Prima”. Para ele a Verdade Primeira era o objeto da Fé. Esse pensamento do “doutor angélico” é doutrina católica e sobre ele se fundamenta o que a Igreja acredita e entende por Fé.(2)

Li hoje uma parte da homilia de D. Henrique Soares, recentemente nomeado bispo de Palmares, zona da Mata de Pernambuco. É muito propícia para o que discorremos agora. Dizia ele: “Não sou cristão porque Cristo falou coisas bonitas. Buda também falou coisas bonitas, Gandhi também falou coisas bonitas…Sou cristão porque Cristo é Deus. Morreu e ressuscitou por nós. Esta é a Verdade!”

Fomos invadidos de todos os lados por um romantismo protestante. Muitos já não tem a Fé católica baseada na Verdade objetiva, mas em sentimentos “bonzinhos” e “bonitinhos” e “lindinhos”. Nossas liturgias, catequeses e até movimentos (antigos e os inventados recentemente) são usados para despertar os sentidos e alimentá-los. Encontros são planejados para despertar não a Fé, mas os sentimentos. Passou a ser termômetro não a convicção no que se crer, mas a emoção que chega antes e, por vezes, sozinha. Maneiras novas de rezar, tais como: “cristotecka”, ‘cristofolia”, cristo-rock, “carnaval-com-Cristo” e tantas outras engenhocas. Isso sem falar em bandinhas de “samba-católico”, “funckcatólico” e derivados, passando pela banda dos tatuados da “Rosa de Saron” que de católica nem o nome tem; com péssimas músicas, condizentes com ausência total de doutrina. “Bonitinha”, mas ordinária, não Verdadeira. Pouco tempo atrás essa mesma banda em programas de televisão, fazendo uso de um exacerbado relativismo teológico, falava heresias como se fossem “pérolas”.

Claro que com esse “romantismo protestante”- oriundo de movimentos pentecostais e neopentecostais , que entraram nos meios eclesiásticos, como a rcc, por exemplo, surge, em nosso meio, uma nova “maneira de ser”. Jovens e adultos católicos com cara de protestantes, jeito de protestantes, maneira de protestantes, “gingas” de protestantes….

Nós temos dois mil anos de Fé, de atos e de maneiras de ser.

De longe pode se reconhecer um ortodoxo, justamente por sua “maneira de ser”. De longe pode se reconhecer um judeu, pela sua forma judia de ser. De longe pode se reconhecer um roqueiro, um testemunha de Jeová, um hare krisna….justamente pela sua maneira de ser, de portar e até de falar..

Também dentro da Igreja há maneiras diversas, mas num mesmo espírito católico. Certa vez vi um rapaz entrar numa igreja e, pela maneira como fez a vênia para o altar, sabia que era um beneditino e acertei-na-mosca! Se me puserem, de olhos vendados dentro de um mosteiro, ao retirarem minhas vendas, saberei imediatamente se aquela casa é franciscana ou cisterciense…,beneditina ou jesuíta. São maneiras, gestos diferentes, mas um mesmo espírito católico assimilado por 20 séculos.

O que não podemos dizer de muitos grupos, pessoas, movimentos. Certos “slogans “, maneiras de saudação que não fazem parte de nossa forma de ser. “A PaiXX de jesuiXX” ou “ JesuiX ti ama”, ou ainda “Allelluyaaa”, “ôooo Glória”, nunca estiveram em nosso vocabulário de católicos. Nunca coresponderam à Verdade católica, mas à uma linguagem romântica, adocicada, protestantizada…Em coisas bem sutis esconde-se o próprio “espírito da coisa”.Como diz Nosso Senhor: “A boca fala do que o coração está cheio”. Primeiro engole-se a doutrina por várias vias: pela música, pelas ideias, pela convivência. Segundo, torna-se o que se come. Por que desde de sua origem a rcc tem cara e jeito de protestante? Simples: porque bebeu “na fonte” (experiência de Duquesne, a “ cruz e o punhal”, e até pregação conjunta: pastores heréticos com pregadores da Canção Nova – “ fratres in unum” – entre outras influências.

A coisa está tão grave que até Adélia Prado – imaginem! Até ela protestou. Vou citar, com a devida licença do Ozuna:

“… Nós começamos a copiar os evangélicos no que eles têm de pior e a qualidade caiu. A qualidade da música […] começamos a ter animadores de missa, palmas […] Tudo equivocado! Os valores se misturaram. Perde-se a sacralidade da liturgia. Em momento de adoração que tem que ser com silêncio e as pessoas cantam sem parar músicas horríveis…” (3)

Mais importante que “ Lançar a Palavra” pela Palavra, é viver a Fé católica sem equívocos nem “misturebas”

Esses vídeos podem ser feitos por católicos e protestantes, sem diferença alguma. É a bíblia pela bíblia e nada mais.
O que nos diferencia dos protestantes é justamente a Verdade, a Verdade Católica. E esta Verdade deve nos impregnar em tudo: mente e corpo, gestos e palavras.

A Sagrada Escritura é uma das fontes da Revelação, mas não a única, apenas. Rodopiar em cima da Bíblia pela bíblia não é católico. Sem a autoridade da Igreja , a Bíblia nada seria.
Ensina Santo Agostinho:

“Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica”
(St. Agostinho – Contr. Epist. Manichaei. v, 6)

Alguns podem objetar: “mas padre, conheço tantos que se converteram escutando a Palavra”!…
Respondo: conheço muito mais que por“escutarem a Palavra” estão nas seitas, enchendo galpões e auditórios. É o efeito da “Sola Scriptura”.

Não são os meios capazes de converter alguém à Verdade, mas a vontade do próprio Deus que se manifesta na sua Igreja. Deus , quando quer, se utiliza de tudo, até do profano, para salvar… Ele é capaz de fazer das pedras “filhos de Abraão”….E se é capaz de fazer das pedras “ filhos-de-Abraão”, também pode ser capaz de fazer deste péssimo artigo, escrito por mim, antídoto contra diabetes espiritual…

No mais, sejamos católicos, apenas católicos sem afetações importadas.
Morramos católicos, com jeito de católicos e não protestantizados.

As palavras até convencem, mas o exemplo é que arrasta.

No mais, nesta quaresma, ofereçamos a Deus o sacrifico de uma alma contrita, embora com ouvidos incomodados

Mas antes de ir embora, quero deixar aqui também o meu # DESAFIO:

IDE A TOMÁS DE AQUINO!

Desafio feito, desafio cumprido?

” A todos quantos agora sentem sede da verdade,dizemo-lhes: ide a Tomás de Aquino!” ( Pio XI)

***

(1)(Schleiermacher, Sobre la religion. Discursos, p.11-12. apud CARLÉS, Frederico Rivanera – Bibliografia:
http://www.pfilosofia.xpg.com.br/geocities/encfil/schleiermacher.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Schleiermacher

(2)Summa Contra Gentiles e Summa Theologiae

(3) Em ” Roda Viva”

Fonte: padremarcelotenorio.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *