A Mãe do Salvador e a Nossa Vida Interior

Artigos•Virgem Maria4 anos atráspor MateusComentarEscrito por Mateus

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A devoção a este ou aquele santo não é obrigatória. Mas, com a Virgem Santíssima não é assim. Desde o tempo dos apóstolos, a Igreja ensina que Nossa Senhora possui um papel determinante na salvação da humanidade.O padre Reginaldo Garrigou-Lagrange, em seu livro La Madre del Salvador e Nuestra Vida Interior[“A Mãe do Salvador e Nossa Vida Interior”][1], explica com grande profundidade teológica por que se invoca Nossa Senhora como “corredentora” e “medianeira de todas as graças”, desde tempos antiquíssimos.

Ele começa a sua reflexão explicando em que consiste a expressão “nova Eva”, comumente usada para se referir à Virgem Maria: “como Eva esteve unida ao primeiro homem na obra da perdição, Maria devia estar unida ao Redentor na obra da reparação” [2]. A Tradição testemunha que esta é uma forma de invocação da Igreja desde tempos imemoriais:

O pe. Garrigou-Lagrange explica ainda como o termo “nova Eva” traz à luz a realidade de que Maria cooperou na redenção, junto com Jesus:

Então, o Redentor é um só, Jesus, e Maria coopera nessa obra não como uma pessoa que ajuda parcialmente a puxar uma carroça, mas como uma árvore cujo fruto, em última instância, vem de Deus. Tanto Jesus quanto Maria atuam na obra da redenção, só que um de forma originária, transcendente e divina; e o outro, de forma secundária e subordinada. O fruto veio da árvore, mas tanto a árvore quanto o fruto, na verdade, vieram de Deus.

Primeiramente, é preciso entender que Maria gerou Jesus por um ato da liberdade divina. Deus, onipotente que é, podia ter mandado o Seu Filho ao mundo de muitas outras formas, mas preferiu servir-se da cooperação de uma criatura humana. Sem dúvida, Deus é a origem da salvação: foi Jesus quem pagou o preço por nossos pecados, morrendo na Cruz e derramando o Seu sangue por nós. Mas, quem tornou possível, com o seu “sim”, que o Verbo tomasse um corpo humano, a fim de sacrificá-lo na Cruz? Foi Maria Santíssima. Visitada pelo arcanjo Gabriel, ela deu o seu consentimento à vontade divina, tornando possível a encarnação do Verbo e a salvação do gênero humano. O fato de o próprio Todo-Poderoso fazer-se “dependente”, por assim dizer, da liberdade de uma criatura, não diminui em nada a Sua obra salvífica. Pelo contrário, só a torna ainda mais maravilhosa, só mostra o quanto é eficaz a vontade de Deus. Como diz Santo Tomás de Aquino, “a vontade divina, sendo eficacíssima, não somente produz as coisas que quer que se façam, mas, também do modo pelo qual assim as quer. Ora, Deus quer que algumas se façam necessariamente; outras, contingentemente” [5]. O Senhor fez que a encarnação do Verbo acontecesse contingentemente, dependendo da liberdade de uma criatura. E isto torna esta obra ainda mais admirável.

Maria, então, ao aceitar ser Mãe do Redentor, tornou-se mãe de todos os homens. Explica Garrigou-Lagrange:

Aos pés da Cruz, Maria entregou-se junto com seu Filho, fazendo companhia ao “novo Adão” e podendo com razão ser chamada “nova Eva” e “corredentora”. Este título, embora não tenha sido proclamado como dogma, poderá sê-lo, no futuro, já que se trata de uma afirmação presente em muitíssimos documentos papais e largamente ratificada pela Tradição.

Então, a Virgem Maria, por instituição do próprio Jesus [7], é responsável por gerar, até o fim dos tempos, todos os homens. “Maria é nossa Mãe espiritual e adotiva, no sentido de que por sua união com Cristo Redentor, nos comunicou a vida sobrenatural da graça” [8]. Mas, escreve o padre Garrigou-Lagrange:

Diante de toda essa exposição, alguém pode perguntar se tudo isso não é muito exagerado. Na verdade, não. Maria é verdadeiramente mãe de todos os homens, assim como Jesus é cabeça de todos os homens [10]. “A mesma mãe não pode dar à luz a cabeça ou o chefe sem os membros, nem os membros sem a cabeça: isso seria uma monstruosidade da natureza”, ensina São Luís Maria Grignion de Montfort. “Se Jesus Cristo, cabeça dos homens, nasceu d’Ela, todos os predestinados, membros desta cabeça, também d’Ela devem nascer, por uma consequência necessária” [11].

A Virgem Santíssima também é invocada pelo povo cristão sob o título de “medianeira de todas as graças”. Uma medianeira pode ser assim chamada por ser sacerdote, mas não se trata disso, como explica Garrigou-Lagrange:

Santo Alberto Magno escreve: “Beata Virgo Maria non est assumpta in ministerium a Domino, sed in consortium et in adiutorium, secundum illud: Faciamus ei adiutorium simile sibi” [13]. Maria era gratia plena, tinha todas as graças. Não tinha a graça do sacerdócio porque possuía algo muito maior: a maternidade divina e o oferecimento de seu próprio Filho na Cruz.

A Santíssima Virgem, como mediadora, deve fazer duas coisas: oferecer orações e súplicas (aspecto ascendente) e, ao mesmo tempo, distribuir-nos as graças (aspecto descendente). Configurada completamente a Jesus, é impossível que Ele não atenda às suas preces. Por isso a Igreja a chama de “onipotência suplicante”. Peçamos, pois, a esta misericordiosa Mãe que nos ajude a amá-la cada vez mais, para que também nós nos assemelhemos cada vez mais a seu divino Filho e nos tornemos seus filhos por excelência, um dia, no Céu.

Referências

1- O livro está disponível em PDF na Internet, mas também pode ser adquirido no site Cultor de Livros.
2- La Madre del Salvador y Nuestra Vida Interior, p. 157
3- Ibidem, p. 160
4- Ibidem, p. 161-162
5- Suma Teológica, I, q. 19, a. 8
6- La Madre del Salvador y Nuestra Vida Interior, p. 165-166
7- Cf. Jo 19, 26-27
8- La Madre del Salvador y Nuestra Vida Interior, p. 163
9- Ibidem, p. 167
10- Cf. Suma Teológica, III, q. 8, a. 3
11- Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, 32
12- La Madre del Salvador y Nuestra Vida Interior, p. 196-197
13- Mariale, q. 42. Apud La Madre…, p. 162

Fonte:https://padrepauloricardo.org/episodios/a-mae-do-salvador-e-a-nossa-vida-interior

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