A foto de Bento XVI

quadro papa Bento XVI

Tiago Bana Franco

Ontem um amigo, que não é católico, perguntou-me por que ainda não substituíra a foto que adorna a tela do computador da minha sala do escritório, trocando a do Papa Bento XVI pela de Francisco. Indagou-me se eu não apreciava o novo bispo de Roma, dizendo, completando sua pergunta, que gostava dele. Disse-lhe, então, que não admirava Francisco justamente por conta da simpatia que ele desperta em quem não é católico; e da aversão que causa nos constrangidos e acabrunhados católicos de sempre.

Minha resposta não causou perplexidade, pois meu amigo me conhece há anos e sabe o que penso. Mas poderia. Afinal, dentro do mundo moderno, um católico não quereria que seu líder caísse nas graças do beautiful people?

Talvez outro católico quisesse ver Francisco na capa da Time. Eu, não. A mim, depõe contra Francisco o fato de ele ser eleito uma das pessoas mais influentes do mundo por aqueles que, se pudessem, destruiriam a Igreja.

E há uma explicação simples para o que penso. Só que não é minha. Ei-la:

“Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa.”[1]

No trecho acima do Evangelho de São João, Cristo deixa bem clara a distinção que há, e que haverá até aos fins dos tempos, entre aqueles que o perseguiram e os que escutaram sua palavra. Os primeiros, crucificaram-no e crucificariam, caso pudessem, seus seguidores. Os outros, acolheram-no e acolheriam-no, nem que fossem pregados à cruz.

Durante o caminhar da humanidade, com a encarnação do Verbo de Deus, separaram-se então duas cidades: a dos homens que buscam a própria glória, desprezando a de Deus; e a dos que buscam a glória de Deus, desprezando-se a si mesmos[2].

E as duas cidades, a dos homens e a de Deus, mantiveram-se apartadas uma da outra, principalmente porque a Cidade de Deus tinha como seu sustentáculo a tradição oral e escrita, transmitida de geração a geração, que remonta aos apóstolos de Jesus. A imutabilidade da tradição apostólica, sintetizada no Credo Niceno-Constantinopolitano, era e é o manancial no qual há de beber a Cidade de Deus; e é o que a distingue da sempre mutável Cidade dos Homens. Esta, de seu turno, foi e sempre será uma babel imensa, por meio da qual o homem quer porque quer ocupar o lugar de Deus, com doutrinas e teorias para justificar tal ocupação.

Eis que surge, então, na Cidade de Deus, sábios mundanos que, muitas vezes travestidos de humildes sacerdotes, inoculam em seu seio a impossível missão de conciliá-la com a Cidade dos Homens.

E o que a Cidade de Deus teria de fazer para que houvesse tal aggiornamento?

Teria de deixar de ser a Cidade de Deus, a candeia que ilumina os passos dos que escolheram a glória de Deus, para se tornar mais um bairro obscuro da Cidade dos Homens.

Só que alguns da Cidade de Deus não relegaram os ensinamentos apostólicos. E foram proscritos. A maioria da Cidade de Deus, porém, quer-se ver no mundo como se mundana fosse, de manga de camisa, e não mais de batina. E isso se agrava ao ponto de hoje o mundo aplaudir, e fazê-lo de pé, aquele que haveria de comandar a Cidade de Deus.

Volte-se ao trecho do Evangelho transcrito. Como Jesus foi perseguido e levado ao madeiro, o mundo haveria de perseguir também aqueles que professam seu sagrado nome, como fez com o Papa Bento XVI. Eis, então, a pergunta: por que não persegue Francisco?

Não o persegue pois Francisco resolveu revolucionar a Cidade de Deus, para pintá-la definitivamente com as cores do relativismo moderno, levando a cabo a ideia de que a Igreja deve sujeitar-se ao mundo, e não sujeitá-lo a glória de Deus.

[1] Evangelho segundo São João, cap. XV, versículo 20.

[2] Agostinho, Santo. A cidade de Deus. 9. ed. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2005.

Fonte: padremarcelotenorio.com

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