A fé não se decide por votos.

Por Alessandro Gnocchi, Il Foglio, 13 de outubro de 2014 | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com – O Cardeal Raymond Leo Burke agrada pouco ou nada ao mundo. E, se possível, ainda menos à Igreja que agrada ao mundo. Por outro lado, este americano de 66 anos natural de Richland Center, Wisconsin, faz todo o possível para ser catolicamente bem sucedido em sua tentativa de incendiar as consciências cristãs muito propensas à apatia. Participa nas marchas pela vida, diz que não dará a Comunhão a políticos que apoiam leis a favor do aborto, denuncia o rápido avanço da agenda homossexual, deixa claro ao Papa Francisco que a defesa de princípios não-negociáveis não é uma moda sujeita aos caprichos dos pontífices e apoia a missa no rito tradicional. Recentemente, assinou o livro coletivo “Permanecer na verdade de Cristo. Casamento e comunhão na Igreja Católica”, escrito em conflito aberto com as misericordiosas aberturas do Cardeal Walter Kasper sobre a família e comunhão para divorciados recasados. Não é de se estranhar então, que a remodelação da Cúria pensada por Bergoglio prevê que o Prefeito da Assinatura Apostólica venha agora a ser exilado como o Cardeal encarregado da Ordem Soberana de Malta. Mas, enquanto isso, no Sínodo sobre a família, esse finíssimo canonista, filho da América rural, assumiu o papel de opositor diante da revolução atribuída sem desmentidos à homens de confiança do Papa. Como se recita na antiga “bíblia poliglota” aberta sobre a estante de seu escritório na página do Eclesiastes: “Cada coisa tem o seu tempo (…) há um tempo para calar e um tempo para falar.”

Alessandro Gnocchi: O que se pode ver além da cortina midiática que envolve o Sínodo?

Cardeal R. L. Burke: Emerge uma tendência preocupante porque alguns defendem a possibilidade de se adotar uma prática que desvia da verdade da fé. Ainda que seja evidente que não se pode proceder desta forma, muitos encorajam perigosas aberturas sobre essas questões, como a concessão da comunhão a divorciados novamente casados. Eu não vejo como se pode conciliar o conceito irreformável da indissolubilidade do matrimônio com a possibilidade de se admitir à comunhão quem vive em situação irregular. Aqui se põe diretamente em discussão aquilo que já nos disse Nosso Senhor quando ensinava que aquele que se divorcia de sua mulher e se casa com outra comete adultério.

De acordo com os reformadores esse ensinamento se tornou duro demais.

Esquecem-se de que o Senhor assegura o auxílio da graça àqueles que são chamados a viver o Sacramento do matrimônio. Isso não significa que não terão dificuldades e sofrimento, mas sempre haverá uma ajuda divina para resolvê-los e ser fiel até o fim.

Parece que a sua é uma posição minoritária…

Há alguns dias atrás eu assisti um programa em que o Cardeal Kasper disse que se está caminhando na direção certa para a abertura. Em poucas palavras, 5.700.000 italianos que acompanharam a transmissão, assumiram a idéia de que todo o Sínodo marcha nessa linha, que a Igreja está prestes a mudar a sua doutrina sobre o matrimônio. Mas isso simplesmente não é possível. Muitos bispos estão intervindo para dizer que não se pode admitir mudanças.

Mas, não é isso que emerge da conferência de imprensa diária da sala de imprensa do Vaticano e isso foi algo lamentado até pelo Cardeal Müller.

Eu não sei como é concebida a conferência de imprensa, mas parece-me que algo não funciona bem se a informação é manipulada de modo a dar destaque apenas a uma tese ao invés de divulgar fielmente as várias posições expostas. E isso muito me preocupa, porque um número consistente de bispos não aceita a idéia de abertura e poucos sabem disso. Só se fala sobre a necessidade da Igreja se abrir às instâncias do mundo conforme anunciado em fevereiro pelo cardeal Kasper. Na verdade, a sua tese sobre os temas da família e uma nova disciplina para a comunhão aos divorciados recasados não é nova, ela já havia sido discutida há trinta anos. A partir de fevereiro, recuperou força e foi culposamente permitida que voltasse a crescer. Mas, tudo isso tem que parar porque provoca sérios danos à fé. Bispos e sacerdotes vêm me dizer que agora muitos divorciados recasados estão pedindo que sejam admitidos à comunhão porque assim o quer Papa Francisco. Na realidade, vejo que até agora ele não se pronunciou sobre o assunto.

Mas parece evidente que o cardeal Kasper e todos aqueles que seguem sua linha dizem que eles têm o apoio do Papa.

Isso sim. O Santo Padre nomeou o Cardeal Kasper para o Sínodo e deixou que o debate seguisse sobre esse trilho. Mas, como disse um outro cardeal, o papa ainda não se pronunciou. Eu estou esperando por um pronunciamento dele, que só pode ser em continuidade com o ensinamento dado pela Igreja ao longo de toda a sua história. Um ensinamento que nunca mudou porque não pode mudar.

Alguns prelados que apóiam a doutrina tradicional dizem que se o Papa resolvesse fazer mudanças, eles iriam aceitá-las. Isso não é uma contradição?

Sim, é uma contradição, porque o Pontífice é o Vigário de Cristo na terra e, portanto, o primeiro servidor da verdade da fé. Conhecendo o ensinamento de Cristo, eu não vejo como se possa desviar daquele ensinamento com uma declaração doutrinal ou práticas pastorais que ignoram a verdade.

A ênfase colocada por esse Pontífice na misericórdia como sendo a mais importante, senão a única idéia de orientação da Igreja, não contribui para sustentar a ilusão de que podemos praticar uma pastoral divorciada da doutrina?

É difundida a idéia de que pode existir uma Igreja misericordiosa que não respeita a verdade. Mas, o que me ofende profundamente é a idéia de que até agora bispos e sacerdotes não tenham sido misericordiosos. Eu cresci em uma área rural dos Estados Unidos, e eu me lembro bem que quando eu era menino, na nossa paróquia, havia um casal de uma fazenda vizinha que vinha sempre à missa em nossa igreja, mas nunca recebiam a comunhão. Na medida que fui crescendo perguntei ao meu pai o porque e meu pai com muita naturalidade me explicou que eles viviam em situação irregular e aceitavam não terem acesso à Comunhão. O pároco era muito gentil com eles, muito misericordioso e aplicava a sua misericórdia em fazer de tudo para que o casal voltasse a ter uma vida de acordo com a fé católica. Sem a verdade não pode haver verdadeira misericórdia. Meus pais sempre me ensinaram que se amamos o pecador, devemos odiar o pecado e fazer de tudo para arrancar os pecadores do mal em que vivem.

Em seu escritório, há uma estátua do Sagrado Coração, em sua capela, acima do altar, há uma outra imagem do Coração de Jesus, o seu lema episcopal é “Secundum Cor Tuum”. Então, um bispo pode manter unidas misericórdia e doutrina…

Sim, é junto à fonte incessante e inesgotável da verdade e da caridade, isto é, a partir do glorioso Coração trespassado de Jesus, que o sacerdote encontra a sabedoria e força para conduzir o rebanho na verdade e na caridade. O Cura d’Ars definia o sacerdote como o amor do Sagrado Coração de Jesus. O sacerdote que está unido ao Sagrado Coração de Jesus não sucumbirá à tentação de dizer ao rebanho palavras diferentes daquelas que Cristo infalivelmente transmitiu à sua Igreja, não cairá na tentação de substituir as palavras da sã doutrina com uma linguagem confusa e facilmente errônea.

Mas os reformistas argumentam que a caridade, para a Igreja, consiste em seguir o mundo.

Esta é a pedra angular dos argumentos daqueles que querem mudar a doutrina ou a disciplina. Isso muito me preocupa. Se diz que os tempos estão muito mudados, que já não se pode falar da lei natural, da indissolubilidade do matrimônio… Mas, o homem não mudou, continua a ser como Deus planejou. Claro, o mundo tornou-se secularizado, mas este é mais um motivo para se dizer a verdade de forma alta e clara. É nosso dever, mas para fazê-lo, como nos ensinou São João Paulo II na Evangelium Vitae, é preciso chamar as coisas pelo seu nome, não podemos usar uma linguagem ambígua para agradar o mundo.

A clareza não parece ser uma prioridade para os reformadores, se por exemplo, não veêm contradição quando sustentam que os divorciados recasados podem receber a comunhão, contanto que reconheçam a indissolubilidade do matrimônio.

Se alguém sinceramente reitera a indissolubilidade do matrimônio só pode corrigir a condição irregular em que se encontra ou abster-se da comunhão. Não há meio termo.

Nem mesmo o chamado “divórcio ortodoxo”?

A praxis ortodoxa da economia ou do segundo ou terceiro matrimônio penitencial é historicamente e atualmente muito complexa. De qualquer modo, a Igreja Católica, que sabe dessa prática há séculos, nunca a adotou, em virtude das palavras de Nosso senhor recordadas no Evangelho segundo São Mateus (19, 9).

Você não acha que, se devessem conceder esta abertura, seria criado precedente para muitas outras?

Certamente. Agora se diz que isso só será concedido em alguns casos. Mas quem conhece um pouco os homens sabe que quando se cede em um caso, se cede em todos os outros. Se for admitida como lícita a união entre divorciados recasados, se abrirá então as portas a todo tipo de união que não está em conformidade com a lei de Deus, porque será eliminado o baluarte conceitual que protege a boa doutrina e a boa pastoral que daí deriva.

Os reformadores frequentemente falam de um Jesus disposto a tolerar o pecado, para caminhar ao encontro dos homens. Mas era assim?

Um tal Jesus é uma invenção que não tem respaldo algum nos Evangelhos. Basta pensar no confronto com o mundo no Evangelho de São João. Jesus foi o maior opositor do seu tempo e ainda o é também nos tempos de hoje. Pense no que Ele disse à mulher flagrada em adultério: “Nem eu te condeno, vá e de agora em diante não peques mais “(Jo 8, 11).

Admitir à comunhão divorciados recasados mina Sacramento do Matrimônio, mas também o Sacramento da Eucaristia. Não lhe parece uma consequência que toca o próprio coração da igreja?

Na Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 11, São Paulo ensina que aqueles que recebem a Eucaristia em estado de pecado comem sua própria condenação. Acesso à Eucaristia significa estar em comunhão com Cristo, ou seja, se conformar a Ele. Muitos se opõem à idéia de que a Eucaristia não é o Sacramento dos perfeitos, mas este é um argumento falso. Nenhum homem é perfeito e a Eucaristia é o sacramento daqueles que estão lutando para se tornarem perfeitos, segundo ordenou o próprio Jesus: ser como nosso Pai que está nos céus (Mt 5, 48). Mesmo aqueles que lutam para alcançar a perfeição pecam, é claro, e se eles se encontram em um estado de pecado mortal não podem comungar. Para fazê-lo devem confessar o seu pecado com arrependimento e com a intenção de não o cometer mais: isso se aplica a todos, incluindo aos divorciados que voltaram a se casar.

Hoje, a participação na Eucaristia quase não é vista mais como um ato sacramental, mas como uma prática social. Já não significa comunhão com Deus, mas aceitação por parte de uma comunidade. Não está aí a raiz do problema?

É verdade, está se tornando cada vez mais difusa essa idéia protestante. E não se aplica somente aos divorciados que voltaram a se casar. Frequentemente se ouve dizer que, em momentos especiais como primeira comunhão, confirmação dos filhos ou em casamentos, até mesmo os não-católicos podem ser admitidos à Eucaristia. Mas isso, novamente é contra a fé, é contra a própria verdade da Eucaristia.

Em vez de um debate sobre estas questões, o que um Sínodo deveria produzir?

O Sínodo não é uma assembléia democrática, onde os bispos se reúnem para mudar a doutrina católica segundo o voto da maioria. Eu gostaria que ele se tornasse uma oportunidade para dar o apoio aos pastores e todas as famílias que querem vivenciar melhor a sua fé e sua vocação, para apoiar aqueles homens e mulheres que, apesar das muitas dificuldades, não querem romper com o que ensina o Evangelho. É isso que deveria fazer um Sínodo sobre a família, ao invés de se perder em discussões inúteis sobre questões que não podem ser discutidas, numa tentativa de mudar verdades que não podem ser mudadas. Na minha opinião, teria sido melhor que tivessem removido estes temas da mesa porque não estão disponíveis. Que se fale em como ajudar os fiéis a viver a verdade do matrimônio. Que se fale da formação das crianças e jovens que chegam ao casamento sem conhecer os elementos fundamentais da fé e depois caem diante das primeiras dificuldades.

Os reformadores não pensam naqueles Católicos que mantiveram a sua família unida, mesmo diante de situações dramáticas renunciando à reconstruir as suas vidas?

Muitas pessoas que fizeram esse esforço agora me perguntam se eles fizeram tudo errado. Eles se perguntam se jogaram fora suas vidas em sacrifícios inúteis. Não é aceitável tudo isso, é uma traição.

O senhor não acha que a crise moral está ligada à crise litúrgica?

Certamente. No pós Concílio se verificou uma queda na vida da fé e da disciplina eclesiástica, evidenciada especialmente pela crise da liturgia. A liturgia tornou-se uma atividade antropocêntrica, acabou por refletir as idéias do homem ao invés do direito de Deus ser adorado como Ele mesmo pede. A partir daqui, segue-se também no campo moral a atenção quase exclusiva às necessidades e desejos dos homens, ao invés daquilo que o próprio Criador inscreveu nos corações de todas as criaturas. A lex orandi está sempre vinculada à lex credendi. Se o homem não reza direito, então também não crê corretamente e portanto não se comporta bem. Quando vou celebrar a missa tradicional, por exemplo, eu vejo tantas belas jovens famílias com muitos filhos. Eu não acho que essas famílias não têm problemas, mas é claro que têm mais força pra enfrentá-los. Tudo isso deve significar alguma coisa. A liturgia é a expressão mais perfeita, mais completa da nossa vida em Cristo e quando tudo isso diminui ou é traído todos os aspectos da vida dos fiéis são feridos.

O que pode dizer um pastor ao Católico que se sente perdido diante desses ventos de mudança?

Os fiéis devem ter coragem, porque o Senhor nunca vai abandonar a sua igreja. Pense em como o Senhor acalmou o mar tempestuoso e as suas palavras aos seus discípulos: ” Por que temeis, homens de pouca fé?” (Mt 8, 26). Se este período de confusão parece colocar em risco a sua fé, devem se empenhar com mais vigor em levar uma vida verdadeiramente Católica. Mas eu me dou por conta que viver nestes tempos comporta um grande sofrimento.

Acha difícil não pensar em um castigo?

Isso eu penso antes de tudo pra mim mesmo. Se eu estou sofrendo agora pela situação da igreja, acho que o Senhor está me dizendo que eu preciso de uma purificação. E penso também que se o sofrimento está tão generalizado, isso significa que há uma purificação da qual toda a igreja tem necessidade. Mas isso não depende de um Deus que só está esperando para nos punir, depende de nossos pecados. Se de alguma forma traímos a doutrina, a moral ou liturgia, inevitavelmente segue-se um sofrimento que nos purifica para trazer-nos de volta ao caminho reto.

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